• Valéria Rossato

Revisão sistemática sobre disfunção sexual em homens utilizando medicações dermatológicas


Assunto super em alta!

Publicado no Jornal da Academia Americana de Dermatologia em julho de 2019


Disfunção sexual é relatada em 31% dos homens entre 18 e 59 anos, sendo que medicações prescritas por médicos são frequentemente a causa. Isto já é bem sabido co medicações anti-hipertensivas e antipsicóticas, mas pouco estudada com medicações dermatológicas. Por isso estes pesquisadores fizeram uma revisao sistemática (aquele estudo onde os pesquisadores analisam dezenas ou centenas de artigos médicos publicados sobre o assunto e fazem uma análise estatística dos dados, dando maior credibilidade aos resultados) para identificar quais são os remédios que nós, dermatologistas, prescrevemos e que mais causam estes problemas nos homens.


Estes foram os medicamentos mais citados: acitretina, corticoides, ciclosporina, finasterida, gabapentina, isotretinoina, itraconazol, metotrexato, pregabalina e talidomida. Destes, apenas a finasterida tem nível de evidencia científica adequada (nível de evidência 1) para guiar uma conduta médica como evitar a introdução ou suspender o medicamento, os demais são baseados em estudos menores como relatos de caso, não tendo evidencia cientifica suficiente para guiar uma conduta (maioria com nível de evidência 4-baixa). Porem devemos ficar atentos sempre! Vamos ver cada um deles?


- Finasterida: na dose de 5 mg ou 10 mg, que são usadas para hiperplasia prostática benigna ou outras condições que não dermatológicas, efeitos como diminuição da libido, impotência ou problemas de ejaculação são relativamente comuns. No entanto, na dermatologia usamos a dose de até 1mg ao dia, sendo que nesta dose existem muito menos evidência cientifica de disfunções sexuais associadas. Dos 15 estudos sobre esse medicamento que eles analisaram, 5 não encontraram aumento na incidência de efeitos adversos sexuais e 10 encontraram. Nos estudos que avaliaram a reversibilidade (melhora dos sintomas), a maioria dos pacientes melhoraram após suspensão da finasterida e muitos melhoraram após um período mesmo com a continuação da droga.

Onze estudos citam efeitos adversos sexuais persistentes mesmo após suspensão, sendo que os fatores de risco para isso foram: doença prostática, idade mais avançada, duração do tratamento mais longa e uso de anti-inflamatórios não esteroidais (os famosos ibuprofeno, nimesulida, diclofenaco, etc..). Interessantemente, o uso desses anti-inflamatórios aumentam o risco em 4,8x de o paciente apresentar os sintomas permanentes.


- Itraconazol: é um medicamento anti-fúngico. Duas séries de caso mostraram disfunção sexual. Na primeira, 3 pacientes num montante de 189 pacientes apresentaram disfunção erétil ou diminuição da libido. Na segunda, 1 paciente em um grupo de 49 pacientes apresentou impotência. Nível de evidência 4 – baixa.


- Ciclosporina: em um estudo de 809 pacientes usando imunossupressores, os que utilizaram ciclosporina tiveram um pouco mais de risco de disfunção erétil do que os pacientes usando outros imunossupressores. Nível de evidência 3b.


- Metotrexato: existem relatos de casos de disfunção erétil, perda de libido e doença de Peyronie (presença de nódulo, palpável ou não, associado à dor e à curvatura do pênis durante a ereção) em pacientes usando esta medicação. Nível de evidência 4 – baixo.


- Talidomina: Três estudos mostraram efeitos adversos sexuais. Em um deles, 5 pacientes de um grupo de 89 pacientes apresentaram diminuição da libido, contra nenhum no grupo controle usando placebo – nível de evidência 1b.


- Gabapentina: 3 estudos mostraram anorgasmia (ausência de orgasmo) com o uso desta medicação. Outros sintomas também foram relatados, porém todos em doses maiores que 900mg/dia. Portanto, redução da dose deve ser considerada em todos pacientes que desenvolver estes sintomas.


- Pregabalina: algumas séries de caso tiveram relatos de disfunção erétil e desordem de ejaculação após inicio desta medicamento, com resolução pós suspensão. Nível de evidência 2b.


- Isotretinoína: Foi relatado um caso de disfunção erétil com o uso de isotretinoína 1mg/kg, a qual melhorou após descontinuação do medicamento. Em um estudo com 55 pacientes usando isotretinoína para acne grave, houve uma proporção maior de dificuldade para manter a ereção no grupo tratado com isotretinoína do que no grupo tratado com outros medicamentos, porém, também havia maior incidência de sintomas depressivos, o que pode ser um confundidor. Nível de evidência 2b.


- Acitretina/ etretinato: existem apenas três relatos de casos de queixas sexuais secundarias a esse medicamento, todas melhoraram após suspensão da droga.


Conclusão: nós, dermatologistas, devemos estar atentos a estas queixas e discutir abertamente com o paciente. Uma relação médico-paciente de confiança é sempre primordial.

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