• Valéria Rossato

A real necessidade de exames de sangue frequentes durante o uso do Roacutan (isotretinoína)

Atualizado: 14 de Mai de 2020





Estudo novo, quentíssimo, do Jornal Americano de Dermatologia sobre a realização de exames de sangue em pacientes usando a Isotretinoína (Roacutan)




Nesse estudo tipo coorte (o que significa um grau de evidência científica confiável), eles avaliaram os resultados de exames de sangue de 1863 pacientes que utilizaram a isotretinoína entre 2008 e 2017.




Destes pacientes, apenas 1% apresentaram alterações significativas no nível de triglicerídeos e 0,5% no nível de marcadores de dano no fígado durante o uso da medicação. Os demais exames nao cursaram com alterações importantes.

O estudo também mostrou que, durante esses quase 10 anos, os médicos continuaram a pedir exames de sangue com a mesma frequência que faziam antes, mesmo havendo inúmeros estudos médicos confiáveis evidenciando o pouco risco de complicações com esse tipo de tratamento, o que acaba onerando financeiramente os sistemas de saúde.

Isotretinoína é um tratamento muito efetivo para acne, podendo levar a remissão completa desta doença. O maior problema no uso dessa medicação é a teratogenicidade (danos ao feto se usados por mulheres grávidas). Existia um certo medo dos efeitos colaterais (como dano ao fígado, aumento do colesterol e triglicerídeos e redução dos glóbulos brancos e plaquetas do sangue) que esse medicamento poderia causar, o que levou a prática de solicitar vários exames mensais durante o tratamento. Desde 2003, estudos vem sendo lançados provando que essa prática não é necessária e sugerindo um screening mais espaçado, como por exemplo: fazer exames no início de tratamento e quando atingir a dose máxima, respeitando as particularidades de cada caso claro… Vou deixar três artigos citados embaixo caso alguém tenha o interesse de lê-los!

O que intrigou os pesquisadores desse estudo foi: será que, mesmo após o lançamento desses estudos, os médicos estão pedindo menos exames e seguindo a orientação das evidências médicas para diminuir os custos do tratamento? A resposta foi que não.

Vamos avaliar a coorte? Chamamos de Coorte o grupo de pacientes estudados. É sempre importante avaliarmos que tipo de pacientes estavam no estudo. Nessa coorte, foram 1863 pacientes com idade média de 18 anos e o tempo médio de uso da isotretinoína foi de 148 dias. Todos os pacientes tratavam sua acne nos EUA.

Entre 2008 e 2016, a frequência de monitorização do nível de triglicerídeos diminuiu 16,4%, do colesterol 12,5%, dos marcadores de fígado 20-25% e do hemograma 12,2%. Esses valores são pouco significativos.

Anormalidades nível 3 (segundo a classificação utilizada no estudo) dos exames de triglicerídeos ocorreram em 12 pacientes, o que corresponde a menos de 1%. Desses 12 pacientes, 7 já tinham níveis aumentados antes do início do tratamento. Dos outros 6 pacientes, em 4 deles houve diminuição dos valores após repetição dos testes. Não houveram casos de anormalidades grau 3 nos exames de colesterol. Quanto aos exames de dano no fígado, 5 pacientes tiveram alterações significativas (correspondendo a menos de 0,5%). Destes, quatro pacientes tiveram melhora dos resultados quando repetidos os exames.

Quanto ao custo disso, a média de custo com exames de sangue para 6 meses de tratamento foi de 134 dólares. É estimado que, se fossem seguidas as orientações de fazer exames no início do tratamento e após a dose máxima atingida, o custo com exames seria de 87 dólares. No contexto americano, isso significaria uma redução de 17,4 milhões de dólares por ano.

Além da redução do custo, diminuir a prática de solicitar um excesso de exames de sangue poderia atrair um perfil de pacientes que tenham indicação de utilizar esse remédio mas que tenham medo de fazer muitas coletas de sangue ou que se sintam receosos em utilizar um medicamento que necessite “tanto controle”.

É claro que cada caso deve ser individualizado. Os medos e as comorbidades prévias devem sempre pesar na decisão médica de seguimento. Converse com seu dermatologista sobre o assunto. Estamos a disposição se você tiver mais dúvidas


Link de três artigos médicos sobre o assunto:


https://www.jaad.org/article/S0190-9622(19)30989-2/pdf

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/27189824

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/12833004

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